PAIXÃO

"Ah, essa paixão que me avassala a alma!"

 

 “Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.

Vinicius de Moraes

 

As pessoas se conhecem, se olham e se apaixonam! Vivem momentos maravilhosos e gostariam que o tempo parasse justamente ali, naquele momento mágico! Tudo vai bem durante algum tempo, mas depois algo acontece que as coisas começam a dar errado e elas já não mais se entendem . Por quê? Há vários motivos e você vai conhecer alguns neste artigo. As pessoas possuem necessidades emocionais que, muitas vezes, nem sabem que têm, mas que influenciam muito em seus relacionamentos e na manutenção de uma convivência satisfatória.

 

A gente pode estar em qualquer lugar, a qualquer hora, e de repente, nosso olhar cruza com o de outra pessoa e tzzz, algo acontece! Algo que a gente não sabe o que é.... A gente só sabe que quer chegar perto daquela pessoa, falar com ela... Aliás, a gente não sabe, porque a gente não percebe nada disso conscientemente... Tudo acontece como se a gente estivesse fora da real.... E está! É que o bichinho da paixão mordeu a gente! Melhor dizendo, a Química da Paixão nos atacou! Inexoravelmente! Implacavelmente! Perdidamente! A partir daquele momento, vamos viver sob o efeito da paixão por algum tempo e não temos como escapar disso!

 

Mas antes de falarmos sobre as necessidades emocionais intrínsecas aos relacionamentos, precisamos falar um pouco sobre sentimentos e emoções.  A emoção é um estado neuropsicofisiológico; um conjunto de respostas químicas e neurais. É instintivo e irracional. É esse impulso neural que impele o  organismo para a ação, tendo também a função de sobrevivência.

 

O sentimento, por outro lado, é a emoção associada a conteúdos cognitivos, valores, cultura e representações em geral. Eles podem ser descritos como agradáveis  ou desagradáveis, prazerosos ou não. Por exemplo, raiva é uma emoção primária, que nos impulsiona para a ação, para nos defender. Mas quantas vezes usamos a raiva motivados pelos nossos pensamentos, valores culturais, etc.? 

 

Quando estamos apaixonados somos dominados por uma série de substâncias que são produzidas pelos neurônios, chamadas de Neurotransmissores e que  nos colocam num estado alterado de consciência. São elas: a Feniletilamina, a Dopamina, a Serotonina, a Noradrenalina, a Endorfina.  A Feniletilamina é uma das mais presentes no cérebro quando estamos apaixonados, por isso é também conhecida como o Hormônio da Paixão. É ela que traz a sensação de prazer e saciedade. Ela também está presente no chocolate, por isso sentimos aquele prazer ao comer uma barrinha de chocolate. Essa substância é produzida naturalmente através de uma simples troca de olhar ou um aperto de mão de uma pessoa com potencial para nos fazer apaixonar.

Outra substância envolvida na paixão é Dopamina. Os seus níveis são aumentados quando a pessoa está apaixonada, o que contribui para o aumento do desejo pela pessoa amada e pela sensação de prazer e bem-estar.

A Serotonina que atua no humor do indivíduo,  tem  seu nível reduzido quando a pessoa está apaixonada,  contribuindo para que a pessoa se sinta eufórica e excitada. É ela também que regula o sono e o apetite e isso explica porque a pessoa  passa noites acordada pensando no ser amado, além de contribuir para o  emagrecimento.

A Noradrenalina é estimulada pela Feniletilamina. É o seu aumento que torna a pessoa suscetível a suar, arrepiar e sentir seu coração disparar.

A Endorfina, considerada como o Hormônio do Prazer, quando liberada na corrente sanguínea, traz uma sensação de euforia e bem-estar, tão característica das pessoas apaixonadas.

Além desses, também temos outras substâncias que ficam alteradas no estado apaixonado,  como a Oxitocina, a Vasopressina e a Testosterona. Eles estão presentes  no corpo do homem e da mulher, mas quando estamos apaixonados, eles são processados numa quantidade muito maior.

A Oxitocina melhora a libido. É o hormônio que estreita a relação do casal devido à sua capacidade de gerar profundas conexões emocionais, e sua capacidade de combustão de sentimentos, intimidade e desejo sexual.

 

A Vasopressina na paixão tem seus níveis reduzidos, o que contribui para uma baixa da ansiedade e a da agressividade, por isso os apaixonados estão sempre “de bem com a vida”.

 

Já a Testosterona contribui para a mulher sentir mais libido e o homem ficar menos agressivo, tornando sua sexualidade mais seletiva, isto é, direcionada apenas para a mulher amada.

 

Como vimos, a paixão é emoção, é irracional; o amor é sentimental, por isso nós podemos amar uma pessoa e escolher não ficar com ela. Na paixão, além da intensa alteração química que ocorre em nosso corpo no momento em que encontramos alguém que mexe conosco, há uma série que experiências pessoais, sociais/culturais das quais não temos consciência. Nem sequer percebemos o estado alterado de consciência que nos acomete com pensamentos obsessivos em relação à pessoa objeto de nossa paixão: pensamos nela o dia todo, sonhamos com ela à noite e queremos esta com ela o tempo todo. Temos dificuldade de nos concentrarmos no trabalho ou no estudo, porque a figura e a lembrança daquela pessoa que surgiu na nossa vida há tão pouco tempo, teima em se apresentar constantemente à nossa mente...

No entanto, um dos momentos mais maravilhosos vivenciados pelo ser humano é quando se está apaixonado e essa paixão é correspondida. Tanto é que quando a paixão acaba nós temos a impressão de que a vida se tornou monótona, sem graça. Precisamos entender a importância e a função da paixão na nossa vida. A natureza é sábia, em tudo o que faz. Sem a química cega da paixão poderia ser muito difícil para os seres humanos se aproximarem uns dos outros e manterem uma relação íntima. A intimidade é difícil para quem não se conhece. É o ímpeto e a cegueira da paixão que permite essa aproximação.

 

E o fim da paixão também é necessário para a manutenção da vida. Como a paixão nos cega e nos faz viver num mundo à parte, ela não poderia durar a vida toda, porque esta exige rotina e obrigações que a paixão não consegue seguir: precisamos trabalhar para prover o nosso sustento; as crianças precisar ser cuidadas; precisam ser alimentadas;  precisam ir para a escola, etc. Por isso a paixão, ou os hormônios da paixão, duram em torno de dois anos. Depois, ela começa a declinar... Como assim? Então, não existe salvação? Tudo vai acabar mesmo depois de dois anos? Calma! Não é bem assim! As coisas mudam, mas o relacionamento não precisa acabar. Ocorre que quando entendemos o funcionamento da paixão, podemos lidar melhor com ela e nos prepararmos para uma outra  etapa, para um relacionamento futuro diferente, mais calmo, mais estável, porém, não necessariamente, ruim.

Graça Oliveira

Psicóloga Clínica

Abordagem Cognitivo-Comportamental