EM BUSCA DA PAZ NO MUNDO

O primeiro princípio da ação não violenta é a não cooperação com tudo que é humilhante”

Mahatma Gandhi

Muito se fala sobre a Paz na Terra. Parece que todos desejam a mesma coisa, mas por outro lado, parece algo tão difícil de ser alcançado! Percebemos que a maioria das pessoas não está satisfeita com valores como o respeito, a justiça, a tolerância, a generosidade, a solidariedade e a ética que vemos desaparecer a cada dia. Parece que todos clamam pela redução da violência e pela Paz no Mundo. E começamos a pensar para onde estamos caminhando se não houver uma reversão desses valores distorcidos, que consequentemente geram a violência, em nosso cotidiano?

 

Os pais se preocupam com o futuro de suas crianças e muitos se perguntam: que mundo nós deixaremos para os nossos filhos? Mas a pergunta deve ser: que filhos nós deixaremos para o mundo?  Porque o mundo somos nós!  O mundo será melhor ou pior dependendo da forma como educarmos nossas crianças. E todos nós devemos nos esforçar para deixar um mundo melhor para as futuras gerações.

 

A Proposta da Unesco

Pensando numa maneira de alcançar a Paz na Terra, no ano 2000 a UNESCO propôs os quatro pilares fundamentais para a educação do Século XXI, que são:

  1. Aprender a Conhecer

  2. Aprender a Fazer

  3. Aprender a Conviver

  4. Aprender a Ser

 

Dezesseis anos se passaram e vemos que o mundo pouco evoluiu em relação a essa tão preciosa proposta. Uma nova geração já estaria se formando com novos valores se esses pilares tivessem sido colocados em prática. Mas se todos anseiam pela Paz porque é tão difícil alcança-la?  Porque exigiria a união de todas as nações num compromisso mútuo com foco na educação infantil e no ensinamento de valores como respeito ao próximo, solidariedade, justiça, tolerância e amor. E a dificuldade está justamente no fato de que as pessoas são diferentes, tem pensamentos diferentes, sentimentos diferentes e principalmente, interesses diferentes.

 

Mas o que nós, como cidadãos conscientes e responsáveis, poderemos fazer para construir um mundo melhor, senão com a tão sonhada paz, pelo menos com mais humanidade? Ensinando aos nossos filhos, desde a mais tenra idade, esses valores hoje esquecidos.

 

As crianças aprendem muito mais copiando comportamentos do que ouvindo conselhos. Sendo assim, podemos perceber a grande responsabilidade que nos cabe com relação ao futuro comportamento de nossos filhos na sociedade. Sabemos que comportamentos geram consequências positivas ou negativas. Como estamos educando hoje as nossas crianças sabendo que elas serão os adultos e dirigentes de amanhã? Que exemplos elas estão presenciando em casa? Que instruções elas estão recebendo?

 

Educação: Um tesouro a descobrir

Como podemos aplicar os pilares defendidos pela UNESCO em nossos lares?

  1. Aprender a Conhecer – é de fundamental importância despertar o interesse da criança pelo conhecimento porque ele liberta. É essa a hora de ensinar e de aprender valores e ética. O ser humano vem equipado com uma sede de saber que não deve ser desperdiçada.  Sendo assim, vale a pena fornecer às crianças desde muito pequeninas, a oportunidade de ler, de pesquisar e de questionar. Tão logo a criança aprenda a ler, deve fazê-lo sozinha. E quando ela nos perguntar pelo significado de terminada palavra, devemos instrui-la a verificar no dicionário. O dicionário amplia a compreensão do termo que se torna restrito quando fornecemos uma resposta fácil. Conforme a criança vai crescendo podemos ir ampliando seu potencial para conhecer. Sempre que possível podemos lhe questionar o que pensa sobre determinado assunto ou situação e ir fazendo os ajustes necessários. Esse posicionamento permitirá que nossos filhos se tornem adultos com ideias próprias e conhecimento necessário para expressá-las.

  2. Aprender a Fazer – desde que a criança começa a andar e a brincar ela pode ajudar guardando seus próprios brinquedos. Ela começa a aprender que há um lugar para cada coisa e cada coisa deve estar em seu lugar. A brincadeira só termina quando os brinquedos são guardados. Gradativamente ela vai ajudando a pôr a mesa, a jogar o lixo fora, a fazer sua cama e ajudar lavando a louça. Isso gera capacidade de organização, senso de cooperação e senso de responsabilidade, qualidades de extrema importância na vida adulta tanto no nível pessoal quanto no profissional. Pouco a pouco a criança vai aprendendo que todos têm direitos e deveres. Quanto mais a criança aprende a fazer coisas, mais confiante, segura e independente se tornará. E assim, estará mais apta a lidar com os problemas e as dificuldades da vida adulta.

  3. Aprender a Conviver – a forma como nos comportamos diante das situações cotidianas está sendo constantemente assimilada pelos nossos filhos. Sensibilizar-se com o sofrimento alheio, amar e proteger os animais e ajudar a quem precisa, são exemplos que mostram à criança o valor da compaixão, da empatia e da solidariedade. O valor do respeito ao próximo começa com o respeito aos próprios pais. Se o filho não respeitar aos pais, não respeitará ninguém mais na face da terra. Respeito a toda e qualquer pessoa, independentemente de idade, cor, etnia, condição financeira, condição física, orientação sexual, religiosa ou filosófica etc. Respeito e consideração pelos idosos e pelo legado de sabedoria que deixaram. Não pegar os brinquedos dos outros sem autorização. Não usar a roupa da irmã sem pedir (e devolver depois intacta como a pegou). Não comer o pedaço de bolo que ficou na geladeira para o irmão. Pisar suavemente no chão do apartamento para não incomodar o morador de baixo. Abrir suavemente a porta do quarto e não acender a luz para não acordar a irmãzinha que está dormindo. São nessas pequeninas coisas que se constrói o senso de respeito ao outro

  4. Aprender a Ser – Fidelidade à nossa consciência.  Aprender a Ser é aprender a compreender e expressar a nossa natureza, através da consulta assídua à nossa consciência. Aprender a Ser é aprender a ser fiel à nossa essência básica, primordial. A introspecção, a reflexão e a meditação nos ajudam nisso. Ensinar à criança a refletir solitariamente sobre o que ela fez de errado e perguntar-lhe como ela se sente por ter feito o que fez,  é um exercício que ela pode levar para toda a vida. Ensiná-la que, muitas vezes, nos debatemos em dúvida sobre o que fazer ou não fazer e que a melhor resposta para a dúvida encontra-se dentro de nós mesmo,  ao ouvirmos profundamente a nossa consciência. Ensinar-lhe que o mundo poderá bater palmas para as coisas erradas que ela fizer e que por isso pode ser tentador fazê-las, mas que acima de qualquer prazer momentâneo estará nossa consciência a nos cobrar o que é correto fazer. Quando ouvimos a voz de nossa consciência desenvolvemos uma autoestima saudável e um orgulho salutar por fazer o que é correto e nos isentamos de culpa e remorso no futuro.

 

Se nossas crianças de hoje são capazes de aprender idiomas e a lidar com informações tão complexas, como as da informática, com tanta facilidade, certamente terão toda a capacidade de aprender esses ensinamentos preciosos. Assim, nas pequenas coisas do dia a dia que ensinamos aos nossos filhos e que eles nos observam fazer, é que podemos construir os valores que queremos ver atuantes na sociedade e que contribuirão para a Paz no Mundo.

 

Graça Oliveira

Psicóloga Clínica

Abordagem Cognitivo-Comportamental